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Engenharia e mudanças climáticas: como construir cidades preparadas para o El Niño

Data de publicação: 14/07/2026

As mudanças climáticas e a iminência de um fenômeno El Niño de forte intensidade acenderam o alerta para a necessidade urgente de adaptar a infraestrutura urbana brasileira. Para entender como a engenharia e a tecnologia podem proteger a população e tornar as cidades mais seguras, uma entrevista especial feita pela Comunicação da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) com o Eng. Joni Matos Incheglu, professor das disciplinas de Estruturas e Planejamento da universidade, especialista com quase 30 anos de atuação na área, Diretor da FIESP pelo CREA-SP e Diretor Administrativo na aeamc.

“A engenharia não controla o clima, mas define como as pessoas o atravessam. Colocá-la no centro do planejamento das cidades, e não apenas na resposta ao desastre, é a decisão mais importante que podemos tomar diante do que vem pela frente”, afirma o Professor.

UMC: Como a engenharia pode reavaliar os limites de segurança das construções, principalmente urbanas, diante da previsão do El Niño mais intenso, para além das mudanças climáticas já em curso?

Eng. Joni Matos Incheglu: As normas técnicas que dão base à segurança das construções foram calibradas a partir de séries históricas de clima — chuva, vento, temperatura. O pressuposto sempre foi o da estacionariedade: o passado representaria razoavelmente o futuro. As mudanças climáticas, e agora a perspectiva de um El Niño de forte intensidade, colocam esse pressuposto em xeque. Eventos que tratávamos como excepcionais passam a ocorrer com mais frequência e magnitude.

Reavaliar os limites de segurança significa revisitar as premissas de projeto: os tempos de retorno adotados para chuvas de dimensionamento da drenagem, as velocidades de vento — tema da recente atualização da NBR 6123 —, a estabilidade de encostas e taludes e o comportamento das fundações em solos saturados. E não se trata apenas de projetar o novo com margens adequadas: o grande desafio urbano é o edificado existente. Por isso a inspeção predial periódica (NBR 16747) e programas de manutenção e reforço estrutural são tão decisivos quanto os coeficientes de segurança do papel.

UMC: Quais tecnologias e métodos construtivos são essenciais hoje para evitar desastres, especialmente nas grandes metrópoles?

Eng. Joni Matos Incheglu: Nas metrópoles, o risco raramente está isolado na estrutura de um edifício; ele está na interface entre a construção, o solo e a água. Por isso destaco três frentes. Na geotecnia, contenções bem dimensionadas, drenagem profunda e estabilização de encostas, apoiadas em investigação de subsolo adequada. Na drenagem urbana, a chamada infraestrutura verde-azul — pavimentos permeáveis, jardins de chuva, telhados verdes e reservatórios de amortecimento —, que compõem o conceito de ‘cidade-esponja’: em vez de expulsar a água o mais rápido possível, retê-la e infiltrá-la.

A terceira frente é a do monitoramento e da informação. Sensores e instrumentação de encostas e estruturas, gêmeos digitais e o uso de BIM no planejamento permitem antecipar problemas em vez de apenas remediá-los. Nada disso substitui, porém, o mais básico e mais negligenciado: manutenção preventiva e o respeito às normas. Grande parte dos desastres urbanos não decorre de falta de tecnologia, mas de ocupação de áreas de risco e de manutenção que não foi feita.

UMC: De que forma podemos projetar cidades mais resilientes para lidar com oscilações bruscas entre secas severas e inundações?

Eng. Joni Matos Incheglu: Esse é o ponto central: precisamos projetar para os dois extremos ao mesmo tempo. A mesma cidade que sofre com enchentes repentinas enfrenta, meses depois, crise hídrica. A resposta de engenharia é integrar captação, reservação e reúso — sistemas que capturam a água da cheia e a guardam para o período de estiagem, aliviando a drenagem no pico e aumentando a segurança hídrica na seca. Drenagem sustentável, recuperação da permeabilidade do solo urbano e reservatórios com uso duplo caminham nessa direção.

Mas resiliência não se resolve só com obra. Ela começa no planejamento territorial: respeitar as áreas de preservação e as várzeas, evitar a ocupação de encostas e fundos de vale, manter cadastro atualizado da infraestrutura enterrada e prever redundância nos sistemas essenciais. Cidade resiliente é aquela em que a engenharia e o urbanismo conversam desde o zoneamento, e não apenas quando o desastre já aconteceu.

UMC: Qual é o papel da engenharia na “engenharia climática” e como ela pode atuar em conjunto com a meteorologia e o Cemaden?

Eng. Joni Matos Incheglu: Convém uma distinção. Uma coisa é a geoengenharia de escala planetária, ainda controversa; outra, bem mais concreta e urgente, é a engenharia de adaptação e resiliência climática — traduzir o conhecimento sobre o clima em infraestrutura que protege pessoas. É nessa segunda acepção que a engenharia tem papel decisivo.

A cadeia funciona em conjunto: a meteorologia (CPTEC/INPE, INMET) faz a previsão; o Cemaden monitora e emite os alertas de deslizamentos e inundações; a Defesa Civil coordena a resposta. A engenharia entra em dois momentos. Antes, fornecendo a base física do risco — cartas geotécnicas, mapeamento de áreas de risco, obras de contenção e drenagem — e definindo os limiares que disparam os alertas. E depois, garantindo que exista infraestrutura de resposta: rotas de evacuação, sistemas de alerta e obras que dão tempo às pessoas. Alerta sozinho não salva; ele salva quando encontra do outro lado infraestrutura preparada e planos de contingência.

UMC: De que maneira a formação dos novos engenheiros está mudando para se adequarem a este novo momento? Como a universidade pode impactar nessa formação?

Eng. Joni Matos Incheglu: A formação está deixando de tratar sustentabilidade e risco como temas laterais para colocá-los no centro do projeto. O engenheiro que estamos formando precisa dominar análise de risco, geotecnia, drenagem sustentável, avaliação de ciclo de vida e ferramentas como o BIM, mas sobretudo precisa pensar de forma interdisciplinar — dialogando com a meteorologia, o urbanismo e as políticas públicas. Some-se a isso uma base sólida de ética e responsabilidade social, porque as decisões de engenharia têm impacto direto sobre vidas.

A universidade impacta por três caminhos. Pelo currículo, atualizando conteúdos e alinhando-os às competências que hoje o próprio ENADE cobra. Pela pesquisa aplicada, gerando soluções para os problemas locais. E pela extensão — os projetos de engenharia comunitária que levam o conhecimento técnico às áreas mais vulneráveis. Aqui na UMC, formar profissionais preparados para esse cenário é, ao mesmo tempo, formar cidadãos capazes de proteger suas comunidades.

UMC: Os critérios para projetos e construções devem ser reavaliados diante desse contexto de mudanças climáticas?

Sim, e essa reavaliação já começou. O ponto de fundo é a premissa de estacionariedade que mencionei: adotar séries históricas como se o futuro fosse repeti-las. Precisamos incorporar séries climáticas atualizadas e revisar os tempos de retorno e as cargas de projeto de chuva e vento. A atualização da NBR 6123, sobre forças do vento, é um bom exemplo desse movimento.

Mas mudar os coeficientes não basta. Três coisas precisam andar juntas. Primeiro, exigir investigação geotécnica e projetos de drenagem à altura do novo padrão de chuvas. Segundo, fortalecer a obrigatoriedade da inspeção predial e da manutenção — construir bem e não cuidar é meio caminho para o desastre. Terceiro, e talvez o mais importante, o planejamento: não adianta construir mais forte no lugar errado. Muitas tragédias são de localização, não de estrutura. Reavaliar critérios é reavaliar também onde se pode e onde não se pode ocupar.

UMC: No Brasil, como as engenharias têm pensado esse novo cenário?

Eng. Joni Matos Incheglu: Há um amadurecimento claro. Os conselhos profissionais — CONFEA e CREA —, a ABNT com a revisão de normas como a NBR 6123, as comissões técnicas e a academia têm colocado o tema na pauta. No setor público, a Lei 14.133/2021 e instrumentos como cartas geotécnicas, mapeamentos de risco e projetos de regularização fundiária com análise de risco vêm dando mais rigor técnico às decisões. A própria estrutura do Cemaden é um avanço institucional relevante.

Nessa direção, merece destaque uma iniciativa recente e muito bem-vinda do Confea, sob a presidência do engenheiro Vinicius Marchese: o Infra-BR — Índice Confea de Infraestrutura do Brasil, lançado em 2026. Trata-se de uma plataforma pública e gratuita que mede, estado por estado, as condições da infraestrutura nacional e, entre suas seis dimensões, contempla justamente ‘Meio Ambiente e Resiliência’, com foco em adaptação climática. Ferramentas como essa dão à engenharia e ao gestor público uma base de evidências para priorizar investimentos e identificar vulnerabilidades — inclusive as associadas ao clima — antes que se convertam em desastre. É exatamente o tipo de protagonismo técnico que precisamos diante desse cenário.

Persistem lacunas, é preciso reconhecer: planejamento territorial fragmentado, ocupação informal de áreas de risco, manutenção subfinanciada e cadastros de infraestrutura ainda precários. O caminho é fazer com que a engenharia esteja presente desde a mesa de planejamento, e não apenas na hora de responder à emergência. É aí que ganhamos ou perdemos vidas.

UMC: Como o Super El Niño pode afetar a construção civil? Quais são os riscos e como mitigá-los?

Eng. Joni Matos Incheglu: O El Niño tem efeitos regionais opostos e a construção civil sente ambos. Onde ele intensifica as chuvas, os riscos se concentram em enchentes, deslizamentos, saturação de solos, paralisação de canteiros, atrasos e danos a terraplenagens e fundações; a drenagem urbana existente, dimensionada para outro padrão de chuva, pode ser sobrecarregada. Onde predomina a estiagem, surgem escassez hídrica — que afeta a cura do concreto e a logística —, fissuração por retração e risco em solos expansivos. E, em ambos os casos, os extremos de temperatura afetam concretagens, pavimentos asfálticos e, sobretudo, a segurança do trabalhador exposto ao calor.

A mitigação passa por planejar a obra sensível ao clima: cronogramas que consideram a sazonalidade, drenagem provisória e proteção de taludes no canteiro, revisão dos projetos de drenagem definitiva, monitoramento de encostas e estruturas, planos de contingência e medidas de segurança contra o calor. Para o patrimônio já construído, a palavra-chave continua sendo inspeção predial e manutenção preventiva — identificar a fragilidade antes que o evento extremo a transforme em acidente.

Gostaria de reforçar uma ideia simples: prevenir é muito mais barato — e infinitamente menos doloroso — do que remediar. Temos hoje ciência, tecnologia e engenharia capazes de reduzir drasticamente os danos de um El Niño intenso. A diferença entre uma crise gerenciável e uma tragédia costuma estar menos no fenômeno em si e mais na nossa preparação: no respeito às normas, na cultura de manutenção, no cuidado com onde se ocupa o território e na integração entre meteorologia, engenharia e gestão pública.

Minicurrículo – Eng. Joni Matos Incheglu

Engenheiro civil registrado no CREA-SP, com 29 anos de experiência em projetos, consultoria e execução de obras, e professor universitário desde 2003 e na UMC desde 2011. Diretor Administrativo do CREA-SP por 2 mandatos; Conselheiro na Câmara Especializada de Engenharia Civil do CREA-SP por 2 mandatos; Coordenador dos Comitês de Reurb, de Carregadores Veiculares e de Engenharia Condominial do CREA-SP; Diretor da FIESP pelo CREA-SP; Conselheiro Titular do CREA-SP no CONPRESP (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo – gestão 2026/2029); Diretor Administrativo na AEAMC – Associação de Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Mogi das Cruzes; Conselheiro na APEMEC – Associação das Pequenas e Médias Empresas de Construção Civil/SP; Proprietário da J33 Engenharia e da JMI Consultoria e Soluções Técnicas em Engenharia com mais de 250 obras executadas.